Como perceber que alguém à sua volta não está bem e o que fazer
Às vezes, a gente percebe antes mesmo de saber explicar.
É uma mudança sutil no jeito de falar. Uma pessoa que sempre respondia rápido e de uma hora a outra começa a demorar dias. Alguém que costumava estar presente passa a se afastar. Ou continua aparecendo, trabalhando, sorrindo, conversando — mas existe alguma coisa diferente. Está mais calada, irritada, cansada, distante. Talvez pareça menos disponível para aquilo que antes lhe fazia bem.
Nem sempre sabemos dizer exatamente o que está acontecendo. E talvez essa seja uma das partes mais humanas de estar diante do sofrimento de alguém: perceber que alguma coisa mudou, mas não ter certeza do que significa.
Então surgem as dúvidas.
"Será que estou imaginando coisas? E se eu perguntar e a pessoa se sentir invadida? E se não for nada? E se for algo importante e eu não souber o que dizer?"
Diante dessa incerteza, é comum recuar. Observamos de longe, esperamos que a pessoa procure ajuda ou pensamos que, se ela quisesse conversar, saberia que poderia nos procurar.
Mas cuidado não precisa começar com certezas.
Você não precisa saber exatamente o que está acontecendo para se aproximar. Não precisa ter uma explicação, um diagnóstico ou uma solução. Às vezes, o primeiro gesto de cuidado é simplesmente dizer: “Eu percebi você. E me importo.”
Uma pergunta feita com delicadeza pode abrir uma porta:
“Tenho percebido você um pouco diferente ultimamente. Como você está, de verdade?”
E talvez a pessoa não queira falar. Talvez diga que está tudo bem. Talvez nem ela saiba explicar o que está sentindo.
Tudo bem.
Acolher alguém não significa forçar uma conversa. Significa oferecer presença, respeito e disponibilidade. É deixar claro que, se — e quando — ela quiser falar, não precisará atravessar aquilo completamente sozinha.
Também não é preciso encontrar as palavras perfeitas. Muitas vezes, estamos tão preocupados em dizer “a coisa certa” que esquecemos que escutar com atenção pode ser mais importante do que oferecer respostas. Uma escuta verdadeira não tenta imediatamente corrigir, aconselhar ou diminuir aquilo que o outro sente. Ela procura compreender.
Porque sofrimento não precisa ser comparado para ser legítimo.
A pessoa não precisa estar “pior” do que alguém para merecer cuidado. Não precisa ter uma justificativa que faça sentido para os outros. E não precisamos compreender completamente a dor de alguém para reconhecer que ela existe.
Este texto é sobre esse momento delicado: o que podemos fazer quando percebemos que alguém à nossa volta talvez não esteja bem?
Como se aproximar sem invadir.
Como perguntar sem pressionar.
Como escutar sem tentar consertar.
Como oferecer ajuda sem assumir para nós uma responsabilidade que não é nossa.
Porque cuidar também é aprender a estar perto — com presença, respeito e humanidade.
O que é o Setembro Amarelo
O Setembro Amarelo é uma campanha brasileira de conscientização sobre a prevenção do suicídio. No Brasil, a iniciativa ganhou força a partir de 2015, em uma parceria entre o Centro de Valorização da Vida (CVV), a Associação Brasileira de Psiquiatria e o Conselho Federal de Medicina. O dia 10 de setembro marca o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.
Mais do que uma campanha de um mês, o Setembro Amarelo pode ser um convite para algo que precisamos cultivar durante todo o ano: olhar para o sofrimento humano com mais atenção, menos julgamento e mais disponibilidade para o encontro.
Em 2026, o tema da campanha do CVV é “Escutar é estar presente”.
E talvez exista algo muito importante nessa escolha.
Escutar não significa ter respostas para tudo. Não significa saber como resolver a dor de alguém, nem assumir a responsabilidade por aquilo que o outro está vivendo. Significa, antes de tudo, estar disposto a permanecer por perto e ouvir com respeito aquilo que muitas vezes é difícil de dizer.
Às vezes, não podemos mudar a circunstância que está causando sofrimento. Mas podemos fazer com que uma pessoa não precise sentir que está sendo invisível dentro dela.
Uma escuta acolhedora pode ser um primeiro passo. E, quando o sofrimento é intenso ou persistente, buscar ajuda profissional também é uma forma de cuidado — não um sinal de fraqueza.
Se você precisa conversar agora
Se você está passando por um momento difícil, pensando em desistir ou simplesmente sentindo que precisa conversar com alguém, você não precisa encontrar as palavras certas para pedir ajuda.
CVV — 188
A ligação é gratuita e o atendimento funciona 24 horas por dia, todos os dias. O CVV também oferece atendimento por chat e e-mail pelo site cvv.org.br.
O atendimento é destinado a qualquer pessoa que queira ou precise conversar. Você não precisa esperar chegar ao limite para procurar alguém.
Pedir ajuda também é uma forma de se cuidar.
“Falar sobre isso pode dar ideia?”
Não. Perguntar com cuidado sobre pensamentos de morte não faz com que eles apareçam.
Esse é um dos mitos que mais podem nos afastar de uma conversa necessária. Muitas pessoas têm medo de perguntar e, por isso, escolhem o silêncio justamente quando percebem que alguém pode estar sofrendo.
Mas conversar sobre pensamentos de morte não significa incentivar o suicídio. Quando esses pensamentos já estão presentes, poder falar sobre eles com alguém que escuta sem julgamento pode ser uma experiência importante. Às vezes, a pessoa vem carregando tudo em silêncio, com medo de preocupar os outros, de ser julgada ou de não ser compreendida.
Uma pergunta simples e direta pode abrir espaço para que aquilo que estava sendo vivido em solidão possa finalmente ser compartilhado:
“Você tem pensado em morrer?”
“Em algum momento, você pensou em tirar a própria vida?”
Perguntar não significa que você precisa saber o que fazer com a resposta. Significa apenas que você está dizendo, de alguma maneira: “Você pode falar comigo sobre isso. Eu consigo ficar aqui e ouvir.”
E escutar não é o mesmo que concordar, minimizar ou tentar resolver imediatamente. É acolher a pessoa e levar a sério aquilo que ela está vivendo, sem julgamentos e sem transformar a conversa em um interrogatório.
O silêncio, por sua vez, pode acabar deixando o sofrimento ainda mais solitário. Quando ninguém pergunta, quem está sofrendo pode interpretar que aquele assunto é pesado demais, inadequado demais ou doloroso demais para ser compartilhado.
Por isso, se algo em você percebe que uma pessoa não está bem, não tenha medo de perguntar com cuidado.
Você não precisa ter a frase perfeita.
Precisa, antes de tudo, estar disposto a escutar.
Sim. Aqui eu faria um ajuste importante: manteria a mensagem de que perguntar não “coloca a ideia na cabeça”, mas evitaria afirmar que a pergunta necessariamente produz alívio. O efeito pode variar de pessoa para pessoa. Também vale trocar “o silêncio não protege ninguém” por uma formulação menos absoluta e mais acolhedora.
“Falar sobre isso pode dar ideia?”
Não. Perguntar com cuidado sobre pensamentos de morte não faz com que eles apareçam.
Esse é um dos mitos que mais podem nos afastar de uma conversa necessária. Muitas pessoas têm medo de perguntar e, por isso, escolhem o silêncio justamente quando percebem que alguém pode estar sofrendo.
Mas conversar sobre pensamentos de morte não significa incentivar o suicídio. Quando esses pensamentos já estão presentes, poder falar sobre eles com alguém que escuta sem julgamento pode ser uma experiência importante. Às vezes, a pessoa vem carregando tudo em silêncio, com medo de preocupar os outros, de ser julgada ou de não ser compreendida.
Uma pergunta simples e direta pode abrir espaço para que aquilo que estava sendo vivido em solidão possa finalmente ser compartilhado:
“Você tem pensado em morrer?”
“Em algum momento, você pensou em tirar a própria vida?”
Perguntar não significa que você precisa saber o que fazer com a resposta. Significa apenas que você está dizendo, de alguma maneira: “Você pode falar comigo sobre isso. Eu consigo ficar aqui e ouvir.”
E escutar não é o mesmo que concordar, minimizar ou tentar resolver imediatamente. É acolher a pessoa e levar a sério aquilo que ela está vivendo, sem julgamentos e sem transformar a conversa em um interrogatório.
O silêncio, por sua vez, pode acabar deixando o sofrimento ainda mais solitário. Quando ninguém pergunta, quem está sofrendo pode interpretar que aquele assunto é pesado demais, inadequado demais ou doloroso demais para ser compartilhado.
Por isso, se algo em você percebe que uma pessoa não está bem, não tenha medo de perguntar com cuidado.
Você não precisa ter a frase perfeita.
Precisa, antes de tudo, estar disposto a escutar.
Essa versão também prepara melhor o próximo trecho do texto, porque abre naturalmente espaço para explicar como perguntar, como escutar e o que fazer diante de uma resposta preocupante, sem transformar o leitor em alguém que precisa “resolver” uma crise.
Sinais de que alguém pode não estar bem
Não existe uma lista que dê certeza, e nada aqui serve para concluir nada sobre ninguém. O que segue são motivos para iniciar uma conversa e definitivamente não deve ser utilizado para chegar a um diagnóstico.
Mudanças de comportamento são o que mais aparece: afastamento de pessoas que antes eram próximas, abandono de atividades que davam prazer, queda no cuidado consigo, alterações importantes no sono ou no apetite, uso de álcool ou outras substâncias acima do habitual.
Mudanças no que a pessoa diz: falar de si como um peso para os outros, expressar sensação de estar preso numa situação sem saída, mencionar cansaço de viver, despedir-se de forma estranha, começar a organizar pendências sem motivo aparente.
Uma mudança que chama atenção pelo contrário: alguém que estava visivelmente mal e, de repente, parece em paz, sem que nada tenha se resolvido. Isso merece atenção, não alívio.
O ponto comum é a mudança em relação ao que era habitual naquela pessoa. Você não precisa entender de saúde mental para notar isso. Você precisa conhecer a pessoa — e você conhece.
Eu deixaria essa parte um pouco mais cuidadosa, principalmente para evitar que o leitor transforme os sinais em uma espécie de “checklist” de risco. A ideia central pode ser: não é o sinal isolado que importa, mas a mudança, o contexto e a combinação de sinais — e, acima de tudo, a possibilidade de conversar.
Sinais de que alguém pode não estar bem
Não existe uma lista capaz de dizer, com certeza, o que uma pessoa está vivendo. Um comportamento isolado também não permite concluir que alguém está em sofrimento psíquico ou em risco de suicídio.
Os sinais abaixo devem ser compreendidos como pontos de atenção, não como diagnóstico. Eles podem ser um convite para se aproximar, perguntar e abrir espaço para uma conversa.
Mudanças de comportamento costumam ser um dos sinais mais perceptíveis. A pessoa pode começar a se afastar de quem antes era próximo, deixar de fazer atividades que costumavam lhe trazer prazer, descuidar de si ou apresentar alterações importantes no sono e no apetite. Também pode haver um aumento no uso de álcool ou de outras substâncias.
Mudanças na maneira de falar sobre si mesma ou sobre a própria vida também merecem atenção. Pode aparecer a sensação de ser um peso para os outros, de estar presa a uma situação sem saída ou de não conseguir mais enxergar possibilidades. Algumas pessoas podem falar sobre estar cansadas de viver, fazer despedidas inesperadas ou começar a organizar questões pessoais e pendências de uma maneira que pareça incomum para elas.
Existe ainda uma mudança que pode causar confusão: quando alguém que estava muito mal parece, de repente, mais tranquila ou em paz, sem que tenha acontecido uma mudança que explique isso. Em determinadas situações, essa alteração pode merecer atenção e uma conversa cuidadosa, em vez de ser interpretada automaticamente como sinal de melhora.
O mais importante, porém, não é reconhecer um conjunto perfeito de sinais.
É perceber o que mudou naquela pessoa.
Aquilo que importa é a diferença entre o que era habitual e o que vem acontecendo agora. Uma pessoa que sempre foi mais quieta pode simplesmente ser quieta. Alguém que dormiu mal algumas noites pode estar apenas passando por uma fase difícil. Por isso, olhar para o contexto e para a história daquela pessoa é tão importante quanto observar o comportamento.
Você não precisa ser especialista em saúde mental para perceber que alguém que você conhece parece diferente.
Às vezes, conhecer a pessoa — saber como ela costuma ser, o que a faz bem, como costuma reagir às dificuldades — já oferece informações que nenhuma lista consegue oferecer.
E, quando algo chama sua atenção, você não precisa ter certeza para perguntar.
“Tenho percebido algumas mudanças em você. Como você está?”
Pode ser o começo de uma conversa que aquela pessoa talvez estivesse precisando ter.
Enxugue repetições sobre mudança
Claro. Dá para deixar mais enxuto sem perder a delicadeza, retirando as repetições em torno de “mudança” e concentrando a ideia em contexto + sinais + convite à conversa.
Sinais de que alguém pode não estar bem
Não existe uma lista capaz de dizer, com certeza, o que uma pessoa está vivendo. Um comportamento isolado também não permite concluir que alguém está em sofrimento psíquico ou em risco de suicídio.
Os sinais abaixo são pontos de atenção, não diagnósticos. Podem apenas indicar que talvez seja hora de se aproximar, perguntar e abrir espaço para uma conversa.
No comportamento: afastamento de pessoas próximas, abandono de atividades que antes davam prazer, descuido consigo, alterações importantes no sono ou no apetite, ou aumento do uso de álcool e outras substâncias.
Na maneira de falar: dizer que é um peso para os outros, sentir-se preso em uma situação sem saída, demonstrar cansaço de viver, fazer despedidas inesperadas ou começar a organizar pendências pessoais sem uma razão aparente.
Há também uma situação que pode confundir: alguém que estava visivelmente mal e, de repente, parece tranquilo ou em paz, sem que as circunstâncias tenham melhorado. Em alguns casos, isso merece atenção e uma conversa cuidadosa, e não apenas alívio.
Mais importante do que reconhecer uma lista de sinais é considerar quem é aquela pessoa e o contexto em que ela está vivendo. Nem todo afastamento significa sofrimento, assim como nem todo sofrimento se torna visível.
Você não precisa ser especialista em saúde mental para perceber quando alguém que conhece parece diferente do habitual.
E não precisa ter certeza para perguntar:
“Tenho percebido algumas coisas em você. Como você está?”
Às vezes, uma pergunta simples é o espaço que faltava para alguém começar a falar.
Como abrir a conversa
Escolha um momento tranquilo, em que vocês possam conversar sem pressa e com alguma privacidade. Não é preciso encontrar a frase perfeita. Basta começar com honestidade e cuidado.
Pode ser algo simples, a partir do que você percebeu:
“Faz um tempo que te noto mais quieto. Fiquei pensando em você. Está acontecendo alguma coisa?”
Se a pessoa responder que está tudo bem ou não quiser falar, respeite. Você não precisa insistir para demonstrar que se importa. Pode apenas deixar a porta aberta:
“Tudo bem, você não precisa falar agora. Mas queria que soubesse que pode falar comigo quando quiser.”
Às vezes, a conversa não acontece naquele momento. Ainda assim, saber que existe alguém disponível, sem pressão e sem julgamento, pode fazer diferença.
Cuidar também é mostrar que a porta está aberta — e respeitar o tempo do outro para atravessá-la.
O que dizer — e o que evitar
A maior parte do cuidado, aqui, está em escutar. Algumas atitudes ajudam a pessoa a continuar falando; outras, mesmo quando vêm de uma boa intenção, podem fazer com que ela se feche. Ajuda:
- Fazer uma pergunta e dar tempo para a resposta, sem preencher imediatamente o silêncio;
- Mostrar que você está disponível e que ela não precisa enfrentar aquilo sozinha;
- Reconhecer o que a pessoa está sentindo, sem tentar corrigir ou diminuir: “Deve estar sendo muito difícil.”
- Perguntar “O que você acha que poderia ajudar agora?”, em vez de presumir o que ela precisa.
É melhor evitar:
- “Você tem tudo para ser feliz.” — pode fazer o sofrimento parecer ingratidão;
- “Tem gente em situação pior.” — comparar dores costuma aumentar a culpa, não diminuí-la;
- “Isso passa, é só uma fase.” — pode transmitir a sensação de que aquilo não merece ser levado a sério;
- Oferecer conselhos ou soluções rapidamente, antes de compreender o que a pessoa está vivendo;
- Reagir com susto, julgamento ou repreensão quando ela disser algo difícil.
Você não precisa ter a resposta certa. Ninguém precisa.
Às vezes, o mais importante é não fugir daquilo que foi confiado a você. Escutar com presença, levar a sério e permanecer disponível já pode ser uma forma significativa de cuidado.
Se a pessoa disser que tem pensado em morrer
Se alguém disser que tem pensado em morrer ou em tirar a própria vida, leve o que foi dito a sério e permaneça por perto. Você não precisa entrar em pânico, nem encontrar imediatamente as palavras certas.
Fique e escute. Não mude de assunto, não tente convencer a pessoa de que ela tem motivos para viver e não transforme a conversa em uma bronca. Pode ser difícil ouvir algo assim, mas continuar presente ajuda a pessoa a não precisar esconder o que está vivendo.
Leve a sério. Mesmo quando a fala vem em tom de brincadeira, ironia ou parece incerta, vale perguntar com cuidado o que a pessoa quis dizer. Em vez de interpretar sozinho, dê espaço para que ela explique.
Não prometa segredo. Se alguém confiar isso a você, não é preciso sair contando para outras pessoas, mas também não é seguro assumir sozinho essa responsabilidade. Você pode dizer:
“Eu não vou sair contando isso para todo mundo, mas me importo com você e acho importante que a gente tenha mais alguém para ajudar a cuidar disso.”
Ajude a buscar apoio. Ofereça-se para procurar atendimento junto, fazer uma ligação, marcar uma consulta ou acompanhar a pessoa. Quando alguém está muito fragilizado, até tarefas simples podem parecer difíceis demais para serem feitas sozinho.
Se houver risco imediato, procure ajuda de emergência. Não deixe a pessoa sozinha e busque atendimento urgente, especialmente se ela disser que pretende agir em breve, tiver um plano ou estiver com acesso a algo que possa usar para se machucar. No Brasil, o SAMU pode ser acionado pelo 192, e uma unidade de pronto atendimento ou emergência também pode oferecer assistência.
O 188 também pode ser um apoio. O CVV oferece atendimento gratuito, 24 horas por dia, para quem precisa conversar. Se for possível, você pode permanecer ao lado da pessoa enquanto ela entra em contato.
Reduza riscos enquanto o cuidado é buscado. Se houver meios disponíveis que possam ser usados para uma tentativa, procure afastá-los da pessoa de maneira segura, sem transformar isso em confronto. Se necessário, envolva alguém de confiança ou um profissional para ajudar nessa decisão.
Você não precisa resolver a vida daquela pessoa naquela conversa.
Seu papel não é salvar alguém sozinho. É levar a sério, permanecer por perto e ajudar a conectar essa pessoa a mais cuidado.
Quando é emergência
Se houver risco imediato — a pessoa está prestes a se machucar, já se machucou ou você entende que ela não está segura sozinha — não espere para ver se a situação melhora.
- Ligue para o SAMU — 192.
- Procure o pronto-socorro ou a UPA mais próxima.
- Não deixe a pessoa sozinha enquanto ela não estiver em segurança e houver alguém ou algum serviço assumindo o cuidado.
- Se houver algum meio disponível que possa ser usado para causar uma lesão, procure reduzir esse acesso de forma segura, sem colocar você ou a pessoa em perigo.
- O CAPS da região pode ser importante para o acompanhamento em saúde mental depois da situação de urgência, mas, diante de um risco imediato, a prioridade é o atendimento de emergência.
Nesses momentos, você não precisa decidir sozinho qual é a melhor solução. Peça ajuda e envolva outros adultos ou serviços de cuidado.
A ideia não é controlar a pessoa. É ajudá-la a atravessar um momento de risco com segurança até que possa receber o cuidado necessário.
No trabalho: o que dá para fazer
Em mais de 25 anos entre o corporativo e a clínica, uma coisa que vi muitas vezes é que o trabalho pode ser um dos primeiros lugares onde alguém percebe que alguma coisa não vai bem — e, ao mesmo tempo, um dos últimos onde alguém se sente à vontade para perguntar.
Colegas convivem muitas horas por dia e, às vezes, percebem antes da própria família que uma pessoa não está como de costume. Mas existe também uma ideia, bastante presente no ambiente profissional, de que assuntos pessoais não pertencem ao trabalho. E assim muita gente percebe, se preocupa, mas acaba não dizendo nada.
Não é preciso ultrapassar essa fronteira para demonstrar cuidado. Uma conversa reservada, sem plateia e sem qualquer tom de avaliação, pode ser suficiente para abrir uma porta:
“Te achei diferente nas últimas semanas. Não quero me meter, mas queria saber se está tudo bem com você.”
A pessoa pode querer falar ou pode preferir não falar. Nos dois casos, respeitar seus limites é importante. O papel do colega não é investigar nem assumir a responsabilidade por resolver o que está acontecendo.
Também é importante ter cuidado com a confidencialidade. Ouvir alguém com respeito não significa prometer que tudo ficará em segredo, especialmente se surgir uma situação de risco. Antes de uma conversa mais delicada, pode ser importante deixar claro:
“O que você me contar será tratado com respeito e discrição. Mas, se eu entender que você ou outra pessoa está em risco, talvez eu precise procurar ajuda para manter você em segurança.”
Para quem ocupa uma posição de liderança, alguns cuidados são especialmente importantes: separar esse tipo de conversa de qualquer discussão sobre desempenho, preservar a privacidade da pessoa dentro dos limites possíveis e conhecer previamente os canais de apoio disponíveis na empresa.
Uma liderança não faz acolhimento clínico. Seu papel é perceber, conversar com respeito, orientar para os recursos disponíveis e, quando necessário, ajudar a pessoa a chegar até eles. Isso pode incluir acionar os canais internos apropriados — sempre compartilhando apenas as informações necessárias para o cuidado e a segurança.
Porque, no trabalho, cuidar também significa entender que uma pessoa pode estar enfrentando algo difícil sem que isso precise ser transformado imediatamente em uma questão de produtividade.
Cuidar de quem cuida
Acompanhar alguém em sofrimento também mexe com quem está por perto. Pode cansar, dar medo e trazer uma sensação de impotência. Às vezes aparece a culpa por não conseguir resolver, ou até a raiva — seguida da culpa por sentir raiva.
Tudo isso pode fazer parte de estar próximo de alguém que sofre.
Duas coisas ajudam a sustentar esse cuidado.
A primeira é dividir. Você não precisa ser a única pessoa acompanhando, nem carregar sozinho aquilo que está acontecendo. Sempre que possível, envolva outras pessoas de confiança e, quando necessário, profissionais e serviços de saúde.
A segunda é lembrar de um limite que pode ser difícil de aceitar: você não é responsável por salvar ninguém.
Você é responsável pelo que está ao seu alcance: estar presente, levar o sofrimento a sério, ajudar a pessoa a buscar apoio e procurar ajuda quando houver risco.
Isso já é muita coisa.
E também é importante cuidar de você. Se estiver difícil demais, procure alguém com quem possa conversar ou um profissional que possa oferecer suporte. Cuidar de alguém não deveria significar desaparecer de si mesmo.
Canais de ajuda
Nem toda situação exige uma emergência. Às vezes, o primeiro passo é simplesmente encontrar alguém com quem conversar ou buscar acompanhamento. Em outras, é preciso agir imediatamente.
Para conversar e buscar apoio
CVV — 188
Gratuito, sigiloso e disponível 24 horas por dia. Também oferece atendimento por chat e e-mail pelo cvv.org.br. O CVV pode ser procurado por quem está passando por um momento difícil e sente necessidade de conversar. Não é preciso estar em uma emergência para ligar.
CAPS
Os Centros de Atenção Psicossocial fazem parte da rede pública de saúde e oferecem acompanhamento em saúde mental. Podem ser uma porta de entrada para quem precisa de cuidado continuado.
Quando é emergência
Procure ajuda de urgência se a pessoa:
- disser que pretende se matar ou se machucar e indicar que isso pode acontecer em breve;
- disser que já decidiu como vai fazer ou estiver com um plano definido;
- tiver acesso, naquele momento, ao meio que pretende usar para se machucar;
- já tiver iniciado uma tentativa ou tiver se machucado com intenção de morrer;
- estiver intoxicada, muito desorientada ou sem condições de se manter em segurança;
- pedir ajuda porque tem medo de fazer algo contra si mesma e você perceber que ela não consegue permanecer segura sozinha.
Nessas situações, não espere a pessoa “ter certeza” nem tente avaliar sozinho o tamanho do risco. Procure atendimento de urgência.
SAMU — 192
Ligue para o SAMU em uma situação de emergência.
UPA ou pronto-socorro
Se for possível transportar a pessoa com segurança, procure a unidade de emergência mais próxima.
Enquanto a ajuda não chega, permaneça com a pessoa e procure afastar, sem confronto e sem colocar ninguém em perigo, meios que possam ser usados para uma tentativa.
Se houver dúvida entre uma situação de apoio e uma situação de emergência, é preferível pedir orientação e não deixar a pessoa sozinha enquanto isso.
Apoio e emergência não são a mesma coisa. O importante é não esperar uma crise para buscar cuidado — e, quando houver sinais concretos de perigo, não tentar resolver sozinho aquilo que precisa de atendimento imediato.
Para saber mais
Para conhecer mais sobre a campanha e seus materiais: setembroamarelo.org.br
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta, avaliação ou acompanhamento profissional.
Conceição Lima — Psicóloga · CRP 06/60176